sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O reecontro na primavera


Hoje, como de súbito, lembrei-me de uma jaboticabeira aos fundos do meu quintal. Tão farta ela estava que, mais do que rapidamente, escamoteei um punhado de suas graciosas frutas, tão vigentes.
Em seguida, lembrei dos purungos que comprei numa viagem que fiz para o Rio Grande do Sul em Janeiro deste ano. Apressadamente fui olhá-los na esperança de encontrar um ninho no purungo azul, no pé de limoeiro, foi uma sensação inexplicável a que eu senti naquele momento: olhar àquele ninho com gravetos tão milimetricamente entrelaçados numa simetria quase que perfeita...
Recordei-me do gosto que tinha por desvendar ninhos, observar os pássaros e as árvores na minha remota infância. No tempo que a minha ingenuidade era como a água cristalina da corredeira de um riozinho, que com o tempo o tornaram um pouco escuro, mas não menos ingênuo.
É a primavera, tão minha confidente e companheira, que me traz a calma que estava perdida no meio de tanta conturbação.
A natureza, minha amiga desde os tempos de "meninice", está sempre comigo, por mais que os deveres e responsabilidades de uma jovem estudante atrapalhem essa união.
Ah, como eu queria o Ser Humano tão amável e acolhedor como a minha doce natureza.
Uma prova do meu amor por ela foi que, o meu primeiro poema, singelamente a retratava.
A mãe natureza, não menos mãe que a minha mãe biológica, que me ouve com esse coraçãozinho ferido dentro de mim, me abraçou e disse: Senta aqui e acalma esse coração, minha amada, tudo vai se ajeitar. A vida é truculenta, mas também é favo de mel. Espere um pouco na sombra de uma de minhas árvores, faça tudo o que não te prejudicará e na sua convalescença esse coraçãozinho vai estar bem novamente, e muitas coisas boas entrarão no seu caminho...

Meu "eu"


É como se eu me transmutasse para escrever tudo o que se passa no meu mundo ininteligível. De repente me contorce as víceras e como em contrações as palavras viessem seguidas de um parto: um pouco doloroso e demorado, mas depois de parir como num cuspido, é como se eu amasse esse alinhamento das palavras até o fim da minha existência.
Sou frágil e ao mesmo tempo indestrutível. O que vive dentro de mim é um "quase eu" que ainda não tem nome, mas que causa profundas sensações.
Há um "eu" da curiosidade aldaz e que às vezes me deixa impaciente, me tira o sono e o equilíbrio. A paz que dentro de mim talvez vive, é quase que empurrada para fora.
Há um "eu" que me maltrata com essa vontade de amar o que ainda está por vir, com o sofrer antes do chegar. Como uma fruta posta a amadurecer antes do tempo. Não é bem amadurecer a palavra que combina comigo, mas foi a que chegou mais perto.
Não posso me esquecer do meu "eu" que sente quando não deve e que não sente quando deve sentir. É a confusão do meu coração e a inquietude da alma. O atropelar das coisas, o prematuro do sentir e o inopinado do que se atravessa no meu caminho.
Por enquanto foi o que consegui descrever de alguns dos meus vários "eus". Não são várias faces, porém, um conjunto de tudo que me forma, me transforma e faz de mim a personalidade do ser.