
A menina andava na rua como se não fosse ela. Era apenas um corpo em movimento, só um corpo.
Ela se sentia constrangida aos olhares das pessoas em sua direção. Era como se cada olhar fosse perigoso, indevido ou até cruel.
A menina moça se sentia feia, se sentia magra demais. E como se não bastasse, aquilo a incomodava por onde quer que fosse; no mercado, na padaria, no colégio, em festinhas... Só se sentia livre quando estava na sua casa, no seu sofá; e ninguém a via.
Se maquiar fazia parte da sua rotina de esconder a própria identidade ao sair aqui e ali. Mas aquela não era ela, aquele corpo não era dela, aquele rosto era só uma tela pintada, sem vida.
O coração da menina era intenso demais, sentia emoções inebriantes que a perturbavam. Pois sentir demais é sentir dor, é ser sensível, é sem compreensão.
Ela até pensou no amor, mas como um rapaz bonito iria se apaixonar por aquilo que ela chamava de corpo? Como o homem dos seus sonhos a olharia nos olhos e a desejaria incessantemente? Aquilo era muito sonho para o pouco que acreditava, era tão curta a esperança e os seus olhos já não eram mais de quem tinha fé. Seus olhos eram perdidos no tempo, mergulhados no vazio mais fundo que ela mesmo havia se jogado.
E quando alguém perguntava se ela era feliz? Ah, ela dizia que sim! Pois tão pouco compreenderia qualquer pessoa que visse seu sorriso, único que sabia fingir muito bem a alegria que nela nem vivia.