quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Intra-Ocular



O tempo passou depressa e hoje estou aqui, crescida. Estou me despedindo do cheiro de mato molhado após a chuva no fim de tarde, do sabiá cantando no pé de bergamoteira, das pombas na laranjeira, do céu azul forte pela manhã e alaranjado ao entardecer, visto da janela da cozinha. Estou me despedindo da jabuticabeira e até das roseiras e daquelas joaninhas coloridas no jardim. Ahhh, tchau beija-flor...
   Quanto tempo eu adiei essa partida? Um, dois, três... quase quatro anos. Todavia, não existe mais a espera - é hora de partir sem olhar para trás.
   Eu nasci nesse lar, há 20 anos, convivi com meus avós - meus segundos pais - eles deixaram esta magia há algum tempo e me deixaram aqui. Agora chegou a hora de recolher a roupa jogada e guardar na mala. Vou juntar as lembranças e guardar no coração.
   Trago comigo aquele olhar doce de criança inocente, o sorriso sincero e o medo do passar do tempo, da escuridão, do silêncio solitário.
   Neste momento as fotos antigas voam com o vento que sopra na janela do meu quarto. A porta se fecha.
   Levo comigo o gosto por fazer as pessoas rirem, a vontade de fazer bem ao próximo e seguirei em busca do que, no fundo, eu sempre quis: aliviar o sofrimento do ser humano para que continue realizando seus sonhos.
   Tenho olhos de menina inocente e dríada, com pensamentos díspares. Sou como um anjo caído do céu, perdido no desejos sapientes ou equivocados que provocam e assombram.
   Corri comigo, me perdi pelo caminho, me quebrei em cacos de vidro e me juntei, formando um cristal reluzente.
   Fui o sorriso de um palhaço e o rascunho da obra das estátuas de Michelangelo.
   Andei pelo deserto do Saara, escalei o Monte Everest e agora atravesso o Oceano Atlântico em busca dos Jardins Suspensos da Babilônia.
   Vou sozinha, vou sem pressa e levo comigo a criança que sempre esteve em mim.
   Se eu tropeçar, me ergo como as muralhas da China. Se eu chorar e quiser voltar, aguentarei firme e serei persistente como um esportista que saiu da unanimidade para o pódium.
   Sinto falta, sinto muito, sinto por ter crescido e perdido a ingenuidade doce que tinha. Agora sou mulher, com meus tropeços e acertos, com a maturidade aflorando e os caminhos mudando.
  Eu cresci e senti o sabor da minha criança interior cada vez menos puro, mas a criança que eu sou estará de alguma maneira dentro de mim, até o fim.

 








Autobiográfico.