terça-feira, 29 de maio de 2012

A gênese de um olhar magistral.

 Todo dia é sempre igual. Ela acorda às sete da manhã com o barulho estridente do despertador. Não pensa duas vezes antes de levantar. Escova os dentes, veste um estilo de roupa de acordo com o seu humor. Hoje, todavia, resolveu vestir uma saia de cetim de comprimento um pouco acima do joelho e uma camisa de voil um tanto discreta, um tanto ousada. Calçou os sapatos peep toe pretos, tomou um café na mesa da sala próxima a cozinha, ecoando solidão. Porém, ama a  própria companhia.
  Subiu em direção ao banheiro, escovou os dentes, passou maquiagem e penteou os cabelos castanhos, tamanho médio. Por fim, passou algumas gotas de perfume e deu a última visualizada para ver se estava tudo ok.
   Desceu as escadas com classe, pegou sua bolsa e decidiu ir a pé ao trabalho. Aquela mulher é firme nos passos, confiante no olhar e sexy nos movimentos. Por onde passa, deixa admiradores para trás. Está tão concentrada em si que mal nota os olhares, sequer nota os homens mais atraentes e charmosos em seus carros.

   Ao chegar no trabalho, pega o elevador e nem se dá conta do homem belo que a admira. Sempre firme no olhar misterioso, jamais é esquecida. Aqueles olhos são marcantes, de mulher determinada.
   Entra em seu consultório, direciona-se até a secretária, a qual imediantamente lhe mostra a agenda de pacientes para hoje. Afinal, uma psicóloga dedicada ao trabalho e renomada está sempre com a agenda cheia.
   Na hora do almoço, pega sua bolsa e vai até o restaurante da próxima rua. Ao passar pela porta do restaurante, vários olhares rapidamente se erguem em sua direção. Alguns homens, de tão indiscretos, chegam a levar uns tapas de suas mulheres enciumadas.
  Ela senta na mesa que dá para a janela, com quatro lugares, porém está só. Mal nota que o mesmo homem belo, o qual a havia olhado hoje cedo, perto do elevador, está na mesa ao lado.
  Vinte minutos se passam e a mulher pede a conta. Levanta-se e vai embora. No caminho, decide tomar um ar na praça da cidade. Ela é apaixonada pelo jardim e pelas árvores existentes no local.
  Trinta minutos depois, levanta-se e volta ao trabalho. Foram mais de seis horas de consultas. Às sete da noite se despede do último paciente, pega a bolsa, troca algumas palavras rotineiras com a secretária e aperta o botão do elevador. Decide chamar um táxi... Abre a porta do seu apartamento, joga a bolsa, tira os sapatos (está exausta), e vai tomar um banho quente. Durante o banho retoma os deveres rotineiros em sua mente. Janta qualquer coisa, lê alguns capítulos do livro do escritor francês De La Rochefoucauld, vai até a sacada e senta-se na cadeira de balanço para admirar a noite. É lua cheia, céu estrelado. Lembra-se de como o amava; e do último dia de mulher boba e romântica, há um ano. Lembrou de quando ele a deixou, com falsas explicações de meias palavras e foi viver a vida com outra, mais previsível, sem ar de mistério... Tão fútil.
  Há oito meses ela não nota mais os olhares, não se encanta por homem algum. Não atende aos telefonemas do dia seguinte, deixando marcas de noites inesquecíveis para homens que, ela mesma trata de esquecer, no minuto que vira as costas e vai embora.
  Todo encontro é sempre igual: Ela parte antes de ser abandonada. Todos os dias são sempre iguais: Decidica a não ser mais enganada.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

É possível ser feliz sem sonhos?

Depois de algumas horas de estudo, comecei a esfregar as mãos no rosto por não conseguir resolver uma questão. Olhei para a janela que fica ao meu lado e vi a vizinha limpando o quintal da sua casa. Quando dei por mim, estava refletindo sobre a vida dela, a Nica, que já deve ter, sei lá, uns 40 anos. E não sai de casa, se esconde da janela quando algum conhecido passa na rua (ela mora na casa da esquina).
  Nica nunca se casou e nem a vi com homem algum desde que me entendo por gente. Às vezes penso: O que será que se passa na cabeça dela? E cheguei à conclusão de que nada daquilo era normal. Talvez algum distúrbio? É uma vida tão monótona, quase parada, se não parada. Quando vou até a casa da Nica entregar a capelinha, ela às vezes conversa comigo, pergunta como estou indo nos estudos e manda eu nunca desistir, "pois o estudo é muito importante na vida de uma pessoa". É então que percebo um certo ar de sabedoria semioculta naquela mulher. Mas em outros dias ela mal dá um oi e entra rapidamente em sua casa como se estivesse fugindo de alguém e não quisesse ser descoberta. Por vezes ela sorri, por vezes finge sorrir; por vezes seu olhar é nublado, por vezes é mistério.
   Pergunto-me se ela é feliz. E se for, como faz pra ser feliz sem sonhos? Como faz pra ser feliz sem esperar nada, além do dia seguinte? Se chove ou dá sol, se irá fazer frio ou calor... Acho que é só isso que ela espera do dia seguinte.
   Ela não trabalha fora de casa (mora com a mãe), não tem filhos, nunca construiu uma família, nunca lutou por um sonho sequer buscou ter conquistas. Nica às vezes limpa o quintal, fica olhando através da janela com vista para a rua (até algum conhecido aparecer). Nica nada espera da vida, apenas vive. E eu que espero tanto dos dias, sobrevivo com os obstáculos, mas de monótona a minha vida não tem nada. E se for? Se for, eu invento um sonho e um novo objetivo. Afinal, só é feliz quem sonha, ou não. Tenho minhas dúvidas.

sábado, 5 de maio de 2012

 Não sou o mistério propriamente dito mais sei-o fazê-lo bem.
 Como linhas subsequentes às vezes me surpreendo com uma súbita e momentânea felicidade sem necessariamente estar feliz.
  Não, não preciso e nem quero ser notada. Nem pelo bem nem pelo mal. Quero estar neutra, se puder até ser invisível. Só então estarei apta e segura para observar com precisão os detalhes a minha volta. Sem interrupções, sem choramingos, sem me importar comigo mesma. Pois sim, vivo para observar, escrever, descrever fatos e sensações alheias.
 Quem sabe não sou humana. Ou sou. Não sei ao certo. Não penso como os outros, sinto absoluta estranhesa diante de muitos. O confortável só existe quando não existo. Os fatos só os são quando meu subconsciente constrói histórias perfeitamente elaboradas dentro do meu adormecer.
  Se não fosse pelo medo da morte, viva eu já não estaria.